(2009) – Apenas 11 dias…

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Parada, no trânsito, dentro do carro. No som, Bethânia canta “As canções que você fez pra mim”. Mais ao fundo, o barulho dos pingos d’água caindo lá fora. Tinha sido um domingo molhado, de um fim de semana chuvoso.  Sem ter muito no que pensar, mas ao mesmo tempo, com a cabeça cheia, e ainda meio grogue de tantos antialérgicos, antibióticos e antigripais tomados numa tentativa quase que insana e desesperada de não sentir mais dor e poder respirar direito, seus olhos se fixam no painel do carro. Ela fica inerte por fora, mas estremece por dentro:  faltam só 11 dias pra terminar o ano. Uma parte dela pensa, o que, afinal, há de tão especial nisso. O dia 1 de janeiro é igual a qualquer outro dia, com a pequena diferença de que grande parte das pessoas bebeu demais na noite anterior e, por isso, irá passar os próximos 364 dias se arrependendo. Ou não! Ela já havia virado o ano sozinha antes, por isso, sabia bem que aquilo não fazia diferença alguma!

Mas, a sua outra parte, a mais emocional, a mais sensível, bem sabe que, embora seja uma data como outra qualquer, no fundo, não é. Há algo invisível, mas absolutamente real entre o dia 31 de dezembro e 1 de janeiro. É um final e um início. Um fim e um começo. Ou, recomeço. É como se a cada 365 (ou 366) dias, a vida nos desse de bandeja uma folha nova, branquinha, pra ser escrita, desenhada, rabiscada, da melhor forma possível. O que ela teria escrito na sua folha de 2009, então? Indagou-se. Saberia o que responder…

Impossível não recordar, naquele momento, do revéillon do ano anterior: os planos que havia feito com ele, afinal, seria seu primeiro ano novo casada! “Reuniremos os amigos e vamos pra praia.” “Como ficará minha casa decorada para o natal?” “Onde passaremos a ceia?” “O que ele me dará de presente no primeiro natal em que eu serei sua esposa?” Estes eram pensamentos que permeavam sua mente nesta mesma época do ano passado. Agora, exatos 365 dias depois, quanta coisa mudara…aliás, (quase) tudo mudara! Há alguns meses já, não mais havia aliança na mão. Nem na direita, muito menos na esquerda. Da casa? Eles abriram mão. Não iriam mais usar, afinal. Os móveis e todos os outros objetos que iriam compor aquele lar? Também encontraram novos donos. Ah! Quanta coisa diferente…diferente do que havia sonhado, diverso do que tinha planejado, distante do que houvera almejado. Que ano tinha sido aquele 2009! Os primeiros meses, a sonhar. Nos outros, a decidir: prosseguir ou rescindir? Caminhar ou retornar? Revelar ou calar? E depois, a continuação: o dia seguinte, os dias seguintes…as tantas lágrimas que ninguém viu, mas que existiram. A dor no peito, pela frustração de mais um sonho desfeito. A angústia do: “E agora, como será minha vida?” A descoberta de que continuaria vivendo, da mesma maneira, mas não igual. Haveria mudança. MudançaS. O mundo do entorno permaneceria igual, ela descobriria. Mas, era ela quem mudara. Ela! E assim, como não fazer ser diferente o que ao seu redor estava? Não foi somente um rompimento. Foram vários. Com várias pessoas e de várias formas. Rompera com o que antes cria ser suas conviccções. Rompera com “amizades”. Rompera com dogmas. Rompera. Quebrara! E, partira! Os meses seguintes poderiam se resumir em uma única palavra: intensidade. Intensos. Cheios. Caldalosos. Imersos de gente, de coisas, de sensações, de desejos, de acontecimentos, de palavras, de atos pensados e impensados. Sim! Pela primeira vez, ela descobrira como por vezes atos impensados podem ser bons! Não ficar calculando demais, nem prevendo, nem medindo, mas sim, apenas vivendo, sentindo, querendo, fazendo, agindo!

Como ela havia crescido ao longo destes 354 dias…inclusive profissionalmente. Mês após mês, superou desafios, vencendo-os. Daquele ponto de vista, havia, sem dúvida, sido seu melhor ano. Tinha aprendido a liderar, a designar funções, dar ordens, cobrar resultados, mas com equilíbrio, e sem autoritarismo.

“E agora?”, ela pensou. O que fazer dos próximos 365 dias? Planejar? Mas, pra que? Se as coisas acabam por tomar rumos diferentes…o mais distante que ela conseguiria pensar, naquele momento, era  nos 30 dias seguintes, que coincidiriam com suas férias. Ela iria viajar. Ia pro seu lugar preferido no mundo. Praquela cidade apaixonantemente caótica, encantadora metrópole!

Ao lembrar-se disso, apenas uma data ecoava em sua mente: 26, 26, 26, 26…pois naquele dia, naquele exato dia, no horário marcado, ela saberia exatamente aonde deveria estar. E, o melhor de tudo, com quem deveria estar. E quanta coisa ela desejava fazer naquele dia: caminhar, caminhar, andar, falar, falar, conversar, rir, sorrir, gargalhar, contar, escutar, ouvir, tocar, sentir, beijar, cansar, encostar, descansar…ufa! Bem, como seria tudo isso ao certo, ela não teria como saber. Sabia, apenas, que começaria com aquele abraço de urso e um cheirinho no pescoço! Ah! E tinha também pensado em algumas frases em espanhol (!!!!!) para falar, mas todas pareciam ridículas demais. Veriam o dia acabar e outro começar, com uma madrugada inteira no meio disso tudo? Ela bem que queria…Mas, e depois? E depois desse dia, o que faria?  O que aconteceria? Ele voltaria? Ela gostaria? Amaria? Choraria? Mudaria? Ele temeria? Sim, sim, sim!!! Sim para tudo e não para nada.  Não para tudo e sim para nada. Afinal, como saber, então? Como saber-se, em vão? Impossível obter tais respostas, sem que seja preciso vive-las. E é isso o que ela mais quer fazer. Viver! Assim como viveu os últimos 354 dias, ela viveria os próximos 11. Especialmente, aquele próximo dia 26. E depois? Bem, só vivendo os 365 dias seguintes pra saber…

O carro de trás buzina. Então, ela desperta do seu devaneio. Da paulicéia desvairada, para a cidade das mangueiras. Do sudeste para o norte. Da paulista, pra BR. Do metrô para o 206.  Do SESI pro Castanheira. Não saberia dizer quanto tempo se passou. Talvez, não muito…mas, apenas o suficiente. Agora, o trânsito fluiu. O engarrafamento acabou. Bethânia continua lá, assim como a chuva, e 2009. Pelo menos, durante os próximos 11 dias…

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